Arquivo de Abril, 2004

» o mundo a cores

A páginas tantas o Senhor Director veio à nossa sala da 4ª Classe no Externato S. João Bosco, em Matosinhos, segredou à Senhora Professora que, atarantada nos levou para a Sala Principal (aquela onde aos Sábados íamos ver slides sobre a vida de S. João Bosco e dos missionários) e aí nos fez sentar.
Consternada, fez o anúncio do dia: “Meninos, hoje sucedeu uma coisa e vocês vão ter que fazer tudo o que eu disser” – o Senhor Director andava para um lado e para o outro, nervoso e esfregando as mãos – a Senhora Professora continuou: “Vou ligar agora aos vossos paizinhos para vos virem buscar… vocês não saem daqui e prometem que não abrem a porta a ninguém, está bem?”

Assentimos em uníssono enquanto eu, preocupado por não ter telefone em casa, não sabia exactamente o que fazer.
Tudo se passou rapidamente a partir daí – os pais começaram a chover em catadupa e ai meu Deus agora o que vai ser, desculpe Senhora Professora mas se calhar o meu menino amanhã não vem… é capaz de ser perigoso – e eu à espera.
Ganhei coragem – juntei-me ao Farinha que já tinha para aí uns 12 anos – e fomos os dois perguntar o que se passava.
A Senhora Professora fez um sinal com o indicador junto aos lábios “Chiu” e segredou: “Houve uma coisa… os tropas prenderam o Senhor Presidente do Conselho…” e logo jovial: “Mas não se preocupem, Deus Nosso Senhor há-de nos proteger!”

Entretanto chegou o meu Pai, vinha a correr desde a tipografia.
Aparentemente tinha sabido da notícia pela rádio.
Deu-me um beijo e fomos de mão dada, à presa, para casa.
“Pai, o que se passa?”
O meu Pai, sempre a nadar disse, com alguma excitação: “Houve uma Revolução.”
Chegados a casa ligamos a televisão.

Barbudos, cabelos grandes, boina mal posta, abraçavam-se à população nas ruas – as chaimites, meu Deus, as chaimites eram a menina dos meus olhos – haviam cravos e as pessoas riam.
Nunca tinha visto algo assim.
Caíam gavetas, secretárias e papéis de janelas e o meu Pai dizia-me “Vês, ali era a PIDE…”.
“O que é a PIDE?”. O meu Pai, já um pouco cansado explicava: “É a Polícia que andava os antifascistas para o Tarrafal, até os torturava… eram como cães…” , e eu pensava como nunca tinha sabido dessas coisas.

“Ó Pai, mas o que andam os soldados a fazer na rua? Porque é que eles têm cravos nas armas? Porque é que há festa? Porque…”
“É a Liberdade! É a Liberdade, filho.”
Fiquei sem perceber.
Então os meus Pais sentaram-se comigo e com o meu irmão e explicaram:
“Liberdade é poderes falar como quiseres, saíres à rua e dizeres a tua opinião, poderes ser quem quiseres. Até ontem, não podias fazer isso senão ias preso. Há gente que, por ser contra o Governo, ia para ao Tarrafal e era torturada, mesmo morta…”
Fiz contas rápidas.
Gostava dessa palavra: Liberdade.
Fiquei nesse momento a saber que não a tinha, que ia passar a tê-la.
Gostei da sensação.

Fiquei a saber palavra novas: Fascismo, Comunismo, Socialismo, MFA – esta que tanto repeti, quase até à exaustão – coleccionei os autocolantes de quase todos os Partidos, e eram tantos!

Fiquei também a saber que não iria para o Ultramar que já me tinha levado dois primos e isso, só isso, chegou para eu acolher efusivamente as notícias.

A Senhora Professora acolheu-nos no dia seguinte com um ar estranho.
Tudo bem, estávamos em Democracia – outra palavra nova – mas tínhamos que ter cuidado com algumas coisas:
Não renegar a Deus, ter respeito ao Pai e à Mãe, e sobretudo, muito cuidado com os Socialistas e com os Comunistas pois esses eram perigosos.
Deu-nos uma receita prática: Todos os partidos que tivessem a cor vermelha eram comunistas e eram perigosos – até matavam os velhinhos com uma injecção atrás da orelha e roubavam os filhos aos pais – por isso, não queria que ostentássemos autocolantes, cartazes, fosse o que fosse dessa cor.
O Senhor Director deu-nos um sermão logo de seguida.

Já iam tarde.
Eu e o Quim olhávamos um para o outro e cúmplices, afagávamos uns autocolantes que, por debaixo da camisa tínhamos colado à pele…

Agora, já sem autocolantes e desbotado de algumas cores, olho para o mau filho e para os filhos dos outros, vejo a sua reacção quando tento explicar tudo o que senti aos 10 anos no 25 de Abril.
Fico acabrunhado quando reparo que estou a falar de um assunto “fora de moda”.

Fico ainda mais acabrunhado quando vejo que será impossível tornar a acontecer.

Bem hajam.

25 DE ABRIL – SEMPRE!

Anúncios

» o mundo a preto e branco

Houve um tempo em que o Mundo era a preto e branco.
É verdade.
Era um mundo de certezas inabaláveis, onde tudo estava onde devia estar e nunca poderia ser de outra forma.
Era um mundo encerrado em si próprio, cego e autista ao tempo que passava lá fora.
Era um mundo repleto de alegrias estéreis como só a alegrias dos pobres podem ser, dos orgulhosamente pobres, orgulhosamente sós nesta ditosa Pátria minha amada, que ostentavam lenços brancos de pureza imaculada na Cova da Iria, acenando a despedida à Virgem como acenavam a despedida ao filho num cais cheio de tropa que embarcava – “Adeus, até ao meu regresso”, diziam – e deixavam para trás uma recém-casada e uma promessa de fidelidade extrema, para o que desse e que viesse, desde que viesse vivo, o pranto e a alma destroçada da mãe que, vendo o filho a partir via-se a ela própria partir-se em mil pedaços de sangue como aquele que tantas vezes encharcou a picada.

“Adeus, até ao meu regresso” e muitos regressaram vivos e inteiros.
Outros regressaram vivos.
Houve ainda outros que não regressaram.
E há ainda aqueles que, tendo regressado, deixaram lá ficar a alma.

Houve um tempo em que o Mundo era a preto e branco.
É verdade.
Era um mundo pequenino povoado por uma imensidão de fantasmas vestidos da mesma forma, falando da mesma maneira, fazendo todos a mesma coisa, todos os dias, todas as horas, ad eternum, amén.
“Espero que esta vos vá encontrar de saúde que eu por cá estou bem, graças a Deus” e a palavra saudade era a força que unia todas as mulheres de negro com o filho no Ultramar a combater os turras, o marido na França ou na Alemanha a fazer o que os outros não queriam, era o estímulo último para quem já não tinha forças para o choro como as raparigas prometidas do soldado que, entregues ao abandono, guardavam carta após carta, fotografia após fotografia, quantas para guardar eternamente com uma vela acesa “Desejo a todos um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de ‘propriedades’, um beijo para os meus pais, os meus irmãos, para a Laurinda e para a Julinha – adeus, até ao meu regresso” poderia ter dito o Rangel de quem a única coisa que vimos regressar foi um caixão que não quiseram abrir.
Poderia ter dito o Rangel de G3 em riste numa picada qualquer de um sítio qualquer do qual nunca saberia o nome pois se soubesse diria um dia “Morri na picada do Kunene, estava Sol e a poeira entrava-me pela camisa, tapava-me os poros, não deixava respirar…” mas nem isso pôde o Rangel dizer.

Houve um tempo em que o Mundo era a preto e branco.
É verdade.
“Foram os turras…”
“E o que são turras?”
“São pretos maus que querem roubar a terra aos Portugueses.”
“Os pretos são maus?”
“Não. Nem todos. Alguns até são quase como nós, já quase sabem falar português e tudo…”
“E porque é que eles querem roubar as terras a Portugal?”
“Olha filho: tu sabes que os turras não são como nós… eles querem fazer as coisas à maneira deles. Mas África é nossa! Fomos nós que descobrimos, fomos nós que lhes ensinamos tudo, eles nem sequer se vestiam… vê lá! E agora querem roubar-nos Africa?”
“E foi por isso que mataram o Rangel?”
“O Rangel morreu a defender a Pátria. O Rangel é um herói.”
Encostei-me a ela.
Eu sabia que um dia também iria defender a Pátria, iria matar turras e ser herói.

Houve um tempo em que o Mundo era a preto e branco.
É verdade.
A sala de aula surda-muda inclinava as paredes para nós com todo o seu peso e, anti-séptica e protectora velava por nós a Santíssima Trindade logo ali, por cima do quadro negro: ao centro, o Senhor Presidente da República Portuguesa Almirante Américo Thomaz, logo seguido pela sua direita pelo Senhor Presidente do Conselho Professor Marcelo Caetano, grande homem que nos entrava porta dentro pela televisão nas célebres “Conversas em Família”, e à esquerda do Senhor Presidente, sempre atento mesmo lá do além, o Senhor Professor António de Oliveira Salazar.
Todos eles, obviamente capacitados pela solene presença do crucifixo logo acima da Presidência.
E a Pátria era grande.
Feita de homens bravos, porém humildes, a quem as riquezas terrenas não se comparavam à suprema honraria de construir a Pátria, esta estendia-se pelos quatro cantos do Mundo: Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, Macau, Timor, Goa, Damão, Diu… éramos grandes e queríamos manter-nos assim.
Os descobridores do Mundo, todos Portugueses, não tinham feito todos os sacrifícios, não tinham tantos morrido às mãos dos selvagens que a custo cristianizamos das formas mais horrorosas como só gente profana sabia imaginar para agora entregarmos tudo.
Não.
As mães Portuguesas haviam ainda de gerar muita tropa de Infantaria, que era da mais pobrezinha mas ainda mais honrada… venham eles.

Fazíamos cópias em cadernos com duas linhas de onde não podíamos fugir, ou a letra, e essas linhas regulavam toda a nossa arte e todo o nosso ofício de copiar, escrever e reescrever vezes sem conta, com letra cada vez mais perfeita, tudo o que já tinha sido copiado, escrito e reescrito com letra mais que perfeita vezes sem conta por gerações que, vezes sem conta olharam para aquelas duas linhas e pensaram como hei-de eu sair destas duas linhas, o que farei fora delas, e que, no entanto, tiveram que ir para a França, Alemanha, Venezuela, Brasil, Estados Unidos, Canadá, a diáspora dos crentes da Nossa Senhora e das duas linhas em papel mata-borrão.

Houve um tempo em que o Mundo era a preto e branco.
É verdade.
E o branco espalhava-se anarquicamente sobre o negro do quadro à medida que o Farinha, rapaz para os 12 anos que andava ainda connosco na 4ª classe e que compensava o fraco aproveitamento na aritmética e na gramática com soberbas prestações físicas e lealdade comprovada na Mocidade portuguesa – francamente aplaudido por todos nós que, não tendo a farda, sonhávamos vir um dia a tê-la – dizia eu, à medida que o Farinha tentava resolver um problema aritmético por entre vergastadas e reguadas, genuflexões e outras torturas caridosas muito em voga na época – nada que não consolidasse o verdadeiro carácter heróico de uma Juventude que se queria forte de ideais e de convicção inabalável – todos nós íamos rindo à socapa.
A páginas tantas, estava eu já a olhar pela janela tentando compreender o que era o barulho lá fora, entra o Senhor Director que segreda qualquer coisa à Senhora Professora que, extática, fica ali, vira para o Senhor Director, vira para o Crucifixo quando, finalmente, resolve tirar-nos da sala de aula e levar-nos para o salão principal – aquele onde víamos os slides do S. João Bosco aos Sábados de manhã.
“Meninos, houve uma… coisa e eu quero que todos fiquem quietinhos que eu vou telefonar para os vossos paizinhos vos virem buscar.”
Fiquei preocupado: nós não tínhamos telefone.
Comecei a juntar dois mais dois, os pais que vinham buscar os filhos e, atrapalhados pegavam neles e “ai Meu Deus, só espero que não aconteça nada” ou “ó Senhora Professora, Deus Nosso Senhor nos ajude que se eles entram por aqui…” e cheguei a uma conclusão, a única conclusão possível:
Os turras tinham invadido Portugal Metropolitano