Arquivo de Setembro, 2004

Debaixo de um fogo a roçar o céu senti a súbita saudade de cheiros de menino quando, sentado no banco de madeira, ouvia um fado, sempre o mesmo, e me deixava assim embalar pela voz entrecortada por ruídos de tachos num frenesi demorado, antecipando o jantar.
Chorei e pedi aos Deuses que me dessem fortuna para conseguir lá chegar uma outra vez.

O barulho das vozes que me rodeavam era aquele que nos assalta no fim de um pesadelo, naquela altura mesmo antes de acordar, e chateava.

Debaixo daquele fogo deixei a minha mente e a minha alma rodopiarem sinistramente em volta de mim até me conseguir encontrar no meio de um suicídio público, daqueles em que se poderia bater palmas ao mortificado actor de tão trágica comédia e, tentando apalpar algum conforto senti então as pontas dos dedos tacteantes encontrarem carne como a minha e virei o meu corpo, sorrindo, preparando o beijo que me iria levar de volta.

Reparei então que a cara que tinha em frente a mim não era a que esperara encontrar.

Esta tinha um esgar que outrora poderia ter sido um sorriso mas que não o era já e olhava-me fixamente com os olhos emoldurados pelo vermelho velho do sangue misturado com o pó.

Tentei ignorar o ruído que me rodeava e voltar àquela cozinha da minha infância, desesperadamente tentei levantar-me e sair correndo mas não consegui: uma barra toldava-me os movimentos.

Era uma barra metafísica, uma barra que não se sujeitava aos baixos desígnios da Natureza e que nunca mais na minha vida se iria separar de mim.

Só muito mais tarde soube que o carro armadilhado tinha morto mais 29 pessoas além de mim.

Agora sorrio toda a minha tristeza e canto só para mim o fado que tão cedo aprendi.

Eu quero amar
amar perdidamente
Amar, só por amar é que há lei
Mais este, aquele outro e toda a gente
Amar
amar e não amar ninguém

Longa é a espera neste vazio que confronto com indiferença e a morte já não é um estorvo pois aprendi a esperar por companhia.

Alguém que me faça a vontade e me lembre como eu era pois a memória já me escapa.

Cedo aprendi que não podemos esperar que exista paz no mundo dos vivos mas, neste que habito agora, a paz está também ausente e a angústia de ver vezes sem conta corpos trucidados pela estupidez é constante.

Se tornar a morrer, quero morrer feliz.

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