Arquivo de Fevereiro, 2005

» senhor p.

Este fim-de-semana morreu gente.
Foi um fim-de-semana prolongado e a morte aproveitou para fazer, de uma vez, uma varredela.

Foram, de uma assentada, personalidades com que cresci, gente que, de uma forma ou outra, por afinidade ou contradição, moldaram muito do que sou hoje.

Vasco Gonçalves, homem de Abril, militar que acreditou na política, na mudança social, no caminho para o Futuro… de uma ou outra forma, não vou criticá-lo aqui.
Foi, antes de mais, um Homem que acreditou ser possível, traçou o caminho e tentou percorrê-lo.

Álvaro Cunhal, o último bastião da Revolução Socialista.
Sobre este Homem é complexo falar.
Anti-fascista lutador, 12 anos de prisão – oito dos quais em isolamento –, uma vida dedicada à Causa.
Sem lucro próprio a não ser o de ver a História fazer-se, também, pelas suas mãos.
Homem político, escritor, pintor, entre muitas outras complexidades decerto desconhecidas pois nunca se fez conhecer.

Eugénio de Andrade, o Homem que cantou as Mães e as vísceras, o amor e os fluidos, a morte e a carne sempre com o mesmo timbre de quem vê ao longe.
Escreveu, antes de mais, o contacto com o maravilhoso que é a vida na sua mais bruta essência.

Todos eles morreram, todos eles vão ser, de certeza, saudade no coração de muitos.

Mas houve mais mortes.
O Sr. P, meu vizinho, morreu.

O Sr. P era homem na casa dos 60, andava pela vida com vagar – ultimamente empurrando o carrinho de bebe do seu neto rua acima, rua abaixo –, nem sequer recordo de alguma vez tê-lo ouvido falar.
Calculo que não tenha nunca saído dos limites da rua.
Era apagado, estranhamente apagado e só passados para aí 10 anos de viver onde vivo é que comecei a cumprimentá-lo com um “bom dia” a que ele me respondia, às vezes, com um ligeiro acenar de cabeça.
O que sei do Sr. P? Mais nada.
Via-o a levar o neto, a dar comida aos cães vadios, sentado à sombra na rua com o seu banquinho… nada mais.
Creio que, algures cá dentro, o desprezava.

Pois bem: sexta, dia 10, o Sr. P foi ao bar da Fanfarra (a minha fonte de arrelias e desesperos), calculo que falar com alguém ou simplesmente tomar um café (acho que também nunca o vi a tomar café), saiu e dirigiu-se a casa.
Lá chegado, enforcou-se.

Não sei mais pormenores.
O Sr. P, durante algum tempo há-de viver ainda nas nossas consciências.
Na dele, não.
A dele deixou de existir.

Porquê um enforcamento?
Porquê o suicídio?
Não sei.
Acho que nunca vou saber, nem sei se quero.

Fico assim, a pensar quem seria realmente o Sr. P.
Acho que, tarde demais e sem saber exactamente porquê, começo a mudar a minha opinião sobre ele.
Afinal, o homem pensava, sentia, vivia… já não.

Não tentou o suicídio, executou-o.
Não se salvou, não foi salvo.

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» é carnaval!

Hoje é noite de folia e o dia começou cedo (ou a noite é que ainda não acabou).

A moda deste Carnaval é a nova e versátil bebida que tanto serve de aperitivo como digestivo, tanto se serve como cocktail como long-drink, que em não raros casos até serve como pequeno almoço: o GreenZipper.
Tem sido um sucesso tal que até estou um bocado à rasca com o stock de Pisang.

O Carnaval aqui no Bar é sempre uma época especial.
Tentamos corresponder ao espírito da melhor forma e proporcionamos ao Cliente ocasiões únicas de descontracção e folia, sempre acompanhadas do inevitável samba que cai sempre bem.
Após várias tentativas de aproveitar a História e de consagrar o Carnaval aos mitos pagãos e à sua adaptação Cristã, chegamos à inevitável conclusão de que o Carnaval só pode ser Brasileiro.

Hoje como o costume, os Clientes gozam o privilégio do descomprometimento total com a vida do dia a dia.

Então como é o Carnaval aqui no Bar?

Começamos por modificar radicalmente a decoração do Bar:
Em vez da habitual penumbra e dos cantos “reservados”, optamos por acender todas as luzes e colocar as mesas encostadas à parede de forma a potenciar as danças.
Com toda a luz que o bar tem nestas alturas, não existe sombra por onde se escapar.
As meninas aparecem com tailleurs Channel e cabelo preso e aguardam pacientemente os Clientes que vão, pouco a pouco, aparecendo.

Quando estes entram, são de imediato abordados pelo “Mestre de Cerimónias” que os encaminha para o vestiário habitualmente utilizado pelas meninas para que, aí e frente ao espelho, adoptem a melhor máscara que conseguirem.

A maior parte deles sai vestido de fato e gravata e palmtop na mão mas não são tão raros os casos em que o Cliente opta por fatos mais ousados e femininos “a la Castelo Branco”, ícone carnavalesco aqui do Burgo.

Começadas as danças e a animação e após mais meia dúzia de GreenZippers já toda a gente está descontraidamente habilitada a adoptar por inteiro a sua identidade, optando a maior parte deles por deixar cair as máscaras:
As meninas, de tailleur Channel e sóbria maquillage passam a tomar conta das Finanças e Economia e os senhores de palmtop em riste dedicam-se a conversas sobre moda e direitos dos Homossexuais, ao passo que os outros que optaram pelo “Castelo Branco look” se divertem a correr uns atrás dos outros chamando-se de “Bicha, ó Biiiicha!!!”.

A festa dura até às tantas e é com pesar que, no fim, os vejo a mascarar-se uma vez mais até ao Carnaval seguinte.