Arquivo de Abril, 2005

Nessa noite chovia.
Era uma daquelas noites em que o céu, próximo de nós, descarregava incessantemente todo o seu peso sobre as luzes da cidade e as pessoas corriam abrigando-se de arcada em arcada, por entre os automóveis imóveis no engarrafamento.
Tínhamos combinado encontrar-nos à porta do cinema às 18:45h para, antes do filme, comermos qualquer coisa e eu aguardava já há algum tempo. No meio de toda aquela lufa-lufa de gente e carros, vi-te a chegar. Vinhas chateada.

Tinhas molhado a saia nova ao atravessar a estrada (um daqueles parvos que não olham a quem passa e conseguem acertar em todas as poças de água que encontram) e abanavas incessantemente as suas pregas tentando minimizar os estragos.
Sorri-te e tu sorriste-me.
Fomos a um café ali perto, pedimos chá e ficamos ali sentados a olhar pela vidraça distraidamente sem nada de especial para dizer. Olhei-te e senti aquela paz morna que se sente quando, num dia de chuva nos deixamos ficar na cama a sornar ou como quando nos deixamos embalar por um brandy tomado ao fim da noite frente à lareira, e recostei-me na cadeira.
Na mesa ao lado, um casal discutia enquanto o seu filho, alheado, construía complexas imaginações com algumas pedritas de Legos, que não, que teria que ir ao jogo pois já tinha combinado, e eu, que quando quero ir a algum lado estás sempre ocupado e tenho que ir sozinha, vais sozinha porque queres, senão telefonavas à tua irmã, é sempre a mesma coisa, lembras-te, já no ano passado por esta altura… e os Legos caíram.
Viramo-nos ambos para a mesa ao lado, subitamente atraídos pelo ruído. O miúdo chorava já e os pais ralhavam com ele violentamente pois não te sabes comportar em lado nenhum, estou farto de te dizer que os Legos não são para trazer, já não sei o que fazer mais, este puto não vai dar nada.
Ajudei o miúdo a apanhar os Legos e este olhou-me com aquele meio sorriso autista que me deixou amargo. Olhei uma vez mais para o casal que já não discutia e sorria complacentemente.
Disseste-me que talvez tivesses que ir trabalhar para fora durante uns meses e eu perguntei-te para onde. Talvez para Paris, disseste.
Fiquei num silêncio estúpido, acabrunhado.
É só por uns três meses… nem vamos sentir.
Pedi a conta ao empregado do café e, quando saíamos, o miúdo veio ter connosco e ofereceu-nos uma pedra de Lego a cada um, uma vermelha e uma amarela. Tu ficaste com a amarela.
Cá fora, debaixo da arcada e com a chuva a cair sobre a multidão, sobre os carros agora furiosos, sobre os pedintes e os polícias, sobre os cães vadios que passavam os caminhos de todos os dias, olhámo-nos uma vez mais e beijámo-nos.
Acho que já não me apetece ir ao cinema, disseste-me.
Amo-te, disse-te.
Afastamo-nos um do outro sem nada mais a dizer, sem promessas, sem contratos a rasgar, sentindo cada um de nós que o mundo iria

continuar a girar lentamente sobre um eixo imaginário, a prender-nos incessantemente pela gravidade, a fluir inexoravelmente por entre os dedos e que a chuva não iria parar tão cedo.
Passados estes anos, tenho ainda a pedra vermelha na gaveta e, de vez em quando pego-lhe e tento imaginar como teria sido se chegássemos a ter ido ver o Fight Club.

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» ask.

Esta compulsão da escrita… da partilha…
Esta compulsão da procura.
A língua inglesa tem uma boa palavra, simples, eficaz, curta e objectiva para definir o sentido desta demanda: ASK.

Apetece-me dizer ASK SEMPRE.

Não é a Verdade, não é a demanda do Sentido da Vida – para esse tenho o dos Monty Python -, é mais um acumular de tensões que jorram pela ponta de uma caneta.
Deslize Freudiano? Concerteza.
Não seja a escrita um prazer e sofrimento como todo o amor que assim se chame…

Dizem coisas acerca do acto criativo, complexidades a que sou alheio.
Não sou escritor, sou antes um debitador de caracteres à velocidade permitida por dois dedos indicadores e um médio, por norma desatento e a quem demasiadas vezes a realidade parece um sonho estapafúrdio de contrasensos e desentendimentos.
A realidade não é harmoniosa, nem eu quero que o seja.
Não pode ser resumida a uma linha, acreditemos no que acreditarmos.
Não pode ser escrita.

Não interessa.

ASK.

Estranho… pensou. E os seus olhos emoldurados pelas rugas de tanto Sol coar piscaram e olharam uma outra vez o horizonte.
Hum… estranho, muito estranho.
Subiu as escadas de caracol para o topo do farol tentando obter assim uma melhor perspectiva mas, chegado lá, a cena não se tinha modificado.
Acendeu o cachimbo e sentou-se no banco de madeira que habitualmente usava para trepar às enormes lentes do farol quando as limpava e deixou-se ali ficar por uns instantes, pensativo.

Enquanto a tarde descia pelo céu, relembrou algumas horas da sua vida: quando o Chico lhe roubou a fisga e partiu os vidros da padaria e quem apanhou uma sova de cinto foi ele, a namorada, única que teve, de corpo e alma, com quem casou mais tarde na mesma igreja onde a esperava todos os domingos, o filho que lhes nasceu e que agora é Doutor na América, os camaradas do barco em que passou a maior parte da sua vida até o acidente o mandar para o farol, a tropa passada na Guiné e os seus mortos, brancos e pretos, o pôr do sol… que hoje não era igual.
Despertou da sonolência que o tinha embriagado e olhou uma vez mais o horizonte.
Estranho… pensou que talvez fosse o fim ou que os Russos andassem por ali ou que os Americanos andassem com mais experiências ou que a aguardente estivesse estragada.
Desceu e caminhou pela areia que nunca mais acabava certificando-se assim da evidência que tanto estranhava.
Hoje não iria, pela primeira vez em décadas, acender o farol.

Calmo, sentou-se.
Tornou a encher o cachimbo e, enquanto ajeitava o tabaco olhou uma vez mais o horizonte semicerrando os olhos.
Nada…

Tinha em tempos ouvido histórias de monstros marinhos, de peixes que encantavam, sereias e afins, tinha durante a sua curta meninice – que cedo começou na faina – alimentado a sua imaginação com imagens de sangue suor e

lágrimas, berros da proa à popa, gente que corria na coberta à procura de salvação de um tenebroso perigo qualquer enquanto vagas fustigavam as redes pendentes que baloiçavam a um ritmo louco enquanto o barco subia e descia, voando arritmias que voavam estômagos borda fora.
Tinha provado o sal e o Sol e as refeições a bordo curtidas em copos de vinho e bagaço para aquecer, a camaradagem que não se esquece, a mão que salva no instante da queda, os olhos já velhos que o afastavam rudemente da borda “tem calma rapaz, tens tempo para isto” e o mandavam para a camarata dormir um pouco, o cabaz que lhe era dado no fim da noite e que orgulhosamente levava à mãe.

Mas isto, isto era diferente.
Desceu as escadas de caracol e sentou-se à mesa abrindo o jornal na página das palavras cruzadas.
Era um hábito solitário que o ajudava a pensar nas longas horas de solidão. Já sabia quase todas de cor e cada vez mais os Jornais repetiam as fórmulas. Chegou ele próprio a desenhar alguns diagramas mas perdeu a paciência e voltou a usar o jornal para se entreter. Chateou-se rapidamente e, após um último olhar ao horizonte que continuava a desafiar a sua inteligência, resolveu deitar-se. Amanhã tudo teria passado, estaria de certeza a sonhar.
Dirigindo-se ao pequeno catre onde dormia (todas as noites sentia a falta do balançar que o adormecia) atirou o jornal para cima da mesa com nódoa de azeite e vinho.
Ficou virada para cima a 1ª página do jornal que, nesse dia, dizia em letra de forma

“Mar: Portugal perde a Zona Económica Exclusiva.”