» as “favas” da globalização – alugam-se jornalistas baratos

REDACÇÕES AMEAÇADAS DE DESLOCALIZAÇÃO

Para reduzir os custos, há jornais que produzem os seus conteúdos em países onde a mão-de-obra é barata. Diários americanos e britânicos já têm redactores na Índia ou Singapura.

por Paolo Stefanini para o “DIÁRIO” de Milão, via Courrier Internacional, nº98, 16 de Fevereiro de 2007

Estamos num bar de Chisinau, a música está alta demais e as dançarinas quase despidas. Um jovem italiano, que caiu nas boas graças das instituições da Repíblica Moldava, tem à frente dois copos de “divin”, o conhaque local. As suas ideias de empreendedor estão a meio caminho entre a paixão jornalística e uma certa veleidade editorial. O nosso interlocutor tenciona explorar a possibilidade de aplicar à imprensa italiana um fenómeno que começa a ganhar peso neste momento, no mundo do jornalismo americano e britânico: a deslocalização. Trata-se de subcontratar, confiando a produção de artigos ou de outras partes de diários e periódicos a uma mão-de-obra barata implantada em países em desenvolvimento. Depois dos frigoríficos e do calçado, a tecnologia de ponta e a gestão à distância dos processos comerciais das empresas, chegou a vez da informação marcar encontro com a economia global. Um fenómeno que já é realidade. A prestigiada agência noticiosa londrina “Reuters” transferiu a maior parte da sua análise financeira sobre Wall Street para Bangalore, na Índia. Abriu uma redacção em 2004, com 340 jornalistas a baixo preço. São agora 1.600, dos quais uma centena trabalha na Índia a tempo inteiro e escreve para jornais americanos, a partir de informações sobre factos acontecidos nos Estados Unidos. Nem os protestos sindicais da Newspaper Guild of New York, nem os piquetes de greve que esta organizou em Times Square serviram de muito. A “Reuters” transferiu também a edição da sua impressionante produção fotográfica para Singapura, onde passaram a ser trabalhadas as imagens que fazem a cobertura dos Estados Unidos e do Canadá.

A INTERNET COMO FONTE?

Em Itália, o risco de deslocalização do trabalho jornalístico é menos elevado. De facto, não há regiões no estrangeiro onde se fale um italiano de qualidade, designadamente nos países em desenvolvimento ou emergentes. As competências linguísticas – muito à frente das qualidades jornalísticas – representam ainda um obstáculo difícil de contornar. Mas isso não quer dizer que a situação não venha a mudar. É possível aprender línguas estrangeiras e os correctores ortográficos são cada vez mais sofisticados. A questão é delicada e não apenas ao que se refere ao emprego. O papel da imprensa é tão importante que as preocupações incidem também nos temas da liberdade e da qualidade de informação. Na verdade, alguns cenários envolvem inevitavelmente a insipidez e a despersonalização das notícias, tornando vã qualquer iniciativa de inquérito ou de controlar os poderes político e económico.

Entre os 20 jovens redactores formados pela Escola de Estudos Superiores de Jornalismo que acaba de abrir em Chisnau, nenhum escolheu a língua italiana. Quase todos falam inglês e seis deles seriam capazes deescrever artigos na língua de Shakespeare. Oito têm muito bons conhecimentos de francês, dois de espanhol e um de alemão. “Nesta fase, a questão das línguas é secundária”, explica o nosso anfitrião italiano, que insiste em manter o anonimato e mostra relutância em dar pormenores sobre o seu projecto. Pediu financiamentos mas ninguém sabe se os vai obter. “Conhecendo os editores”, prossegue, “estou certo de que sonham com explorar jornalistas a beixo preço, À semelhança dos industriais do calçado e do mobiliário em relação aos operários romenos ou moldavos. Abrem uma fábrica [ou uma redacção] e fecham-na para se irem instalar noutro lado, onde o trabalho custe menos.” O seu projecto, no qual parece acreditar com a certeza de um visionário, é criar um centro “com a direcção e eventual trabalho de acabamento em Itália”. Este estaria em condições para explorar o imenso potencial de fontes disponibilizadas pela internet. “Pouco importa que os jornalistas moldavos não dominem a língua italiana como se fosse a sua língua materna, porque o produto final – o artigo – deixou de ser uma etapa essencial no ciclo de produção de informação. A partir de agora, o destaque será dado à selecção e identificação de um determinado número de elementos incluídos num fluxo contínuo de dados. E a Moldávia é um país crucial, do ponto de vista linguístico, se quisermos controlar a avalancha de informação [‘sites’, blogues, etc.] oriunda tanto do gigante russo como dos países europeus”, garante.

ESCREVER SOBRE O QUE NUNCA SE VIU

Estas declarações talvez possam parecer extravagantes em Itália, mas nos Estados Unidos e noutros ambientes editoriais de língua inglesa, o trabalho à distância em regime de subcontratação já não pode ser subavaliado. Recentemente, num blogue do Poynter Intitute, uma das mais conhecidas escolas de jornalismo americanas, Joe Grimm inseriu um artigo que deu muito que falar e que chegou a ser repescado pelo “International Herald Tribune”. Grimm, que trabalha no serviço de recursos humanos do “Detroit Free Press”, partiu da sua experiência pessoal, ou seja, as centenas de “e-mails” que lhe enviam jovens indianos desejosos de colaborar com o seu jornal. Sem qualquer intenção de emigrarem para o Michigan, estes jovens propõe-se ser “suburbanos” digitais. Ainda que todos os editores que subcontratam trabalho no estrangeiro insistam no facto de que “o valor acrescentado não é a diminuição das despesas, mas a possibilidade de inovar, graças a condições mais favoráveis que permitam criar economias de escala”, as dúvidas persistem. E, na verdade, fazer um produto melhor não parece ser o motivo pelo qual se subcontrata trabalho a países em desenvolvimento. A economia de 60 a 70 por cento sobre o custo de um jornalista “também vem do facto de, na Índia, não haver seguros, segurança social ou férias pagas. Trabalha-se muitas vezes sete dias por semana em horário fabril, como no séc. XIX”, observa Joe Grimm. Muitos editores, porém, parecem ligar pouco a estas questões. O “Columbus Dispatch”, um jornal diário histórico do Ohio, fundado em 1871, anunciou o despedimento de 90 elementos da sua redacção técnica e a maqueta é agora feita em Pune, na Índia. O “Chicago Tribune” prepara-se para subcontratar, confiando a uma empresa situada nas Filipinas um sector onde, até agora, trabalhavam 40 colaboradores. E há muitos outros exemplos. Ainda que sejam reticentes em divulgar os nomes dos seus clientes americanos, canadianos, australianos ou britânicos, as empresas indianas como a Hi-Tech Export, de Ahmedabad, ou a Cicada Media, situada em Bangalore, já produzem diariamente um grande número de páginas de conteúdos para jornais, revistas e “sites” da Internet. O seu mercado não pára de crescer. Nos artigos sobre “faits divers”, os jornalistas conseguem mesmo descrever, com abundância de pormenores, acontecimentos que ocorreram em cidades americanas ou britânicas onde nunca estiveram. Descarregam mapas por satélite graças ao Google Earth e descrevem assim sítios longínquos, com grande domínio da topografia. A deslocalização parece minar exactamente o psto de trabalho que, nos últimos 15 anos, era considerado o mais seguro: o trabalho do editor, aquele que “monta” a página, corrigindo os artigos dos outros jornalistas e criando os títulos, as legendas, os resumos e os quadros. O velho jornalismo foi considerado – talvez com razão – como inutilmente dispendioso, recheado de mitologia profissional e de uma retórica obsoleta. As reportagens e as investigações foram, assim, reduzidas à expressão mais simples. Dai que nesceu a ideologia do profissional pregado diante do seu computador, que alimenta o seu trabalho com os telexes das agências noticiosas. descobre-se que, agora, sem um mínimo de valor acrescentado, este trabalho se torna numa situação de risco. E isto não acontece por a supremacia do “desk” não ser real, mas porque, do outro lado do planeta, há quem consiga fazer as coisas com maior eficácia e, sobretudo, a preços mais baratos.

TARIFAS

Quando concebeu um projecto de jornal italiano em inglês, o “Diário” pediu colaboração à empresa indiana Hi-Tech Export [http://hitechexport.com], que já trabalha para vários jornais europeus, “sobretudo ingleses, franceses e alemães”. Em poucos minutos, esta avaliou o projecto e fez uma proposta, oferecendo 15 dias de ensaio gratuito. Para redigir os artigos a partir de comunicados de agências, a firma pede 35 Euros por 500 palavras. Os redactores podem trabalhar a qualquer hora para entregarem os textos a tempo. São “diplomados em domínios científicos, têm 21 a 29 anos e 12 a 24 meses de experiência jornalística. Falam e escrevem em inglês, hindimayalam e o idioma local”, indicam os responsáveis da Hi-Tech Export.

Anúncios

  1. 1 #2007.0018 as favas da globalização | Fractura.Net

    […] deste ano sob o título “As favas da globalização – alugam-se jornalistas baratos” [link] e que retrata muito bem essa mesma situação. Por lá encontram algumas referências, como a que […]

  2. 2 Alugam-se jornalistas! « Jornalismo Online

    […] Leiam o artigo na íntegra aqui. […]




Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s



%d bloggers like this: