Archive for the ‘causas’ Category

» o referendo

#00002 

Para acabar com o assunto. Amanhã será o tal dia em que iremos escolher entre duas opções e depois de amanhã a coisa estará consumada.

O aborto é apenas a face [in]visível de uma problemática social que é diversa e que não escolhe classes ou posições sociais. É abrangente e não faz distinções nesses campos. A única distinção feita é no que se refere ao sexo. Mesmo que queiramos considerar que ambas as partes de um casal consciente do acto sofrem cada qual o seu quinhão, casos há em que tal não acontece, casos há em que não existe casal. O aborto é feminino.

A outra distinção existente é a forma como se pratica o acto. Depende de muita coisa mas, em grande parte, depende do dinheiro que a mulher tem para o fazer. A escolha entre uma clínica em Portugal ou em Espanha e o antro de uma parteira semi-diplomada ou os recursos artesanais depende em muito das posses que se tem. O circuito social em que a mulher se move tem também a sua influência.

De qualquer forma, volto a frisar, o aborto acontece em todas as latitudes e longitudes da sociedade feminina.

As justificações para a prática do aborto são muitas. Cada uma delas tem a sua razão própria, tem o seu drama, cada qual deles mais intenso que o da vizinha do lado. Podemos perder-nos em considerações morais, podemos perder-nos em preceitos de ética mas a conclusão será sempre a mesma. Cada mulher tem um motivo tão válido como a próxima para praticar um aborto.

E o aborto tem sido e será sempre praticado sempre que uma dessas razões ocorra.

O que muda, então, depois do referendo? Provavelmente nada. As mulheres continuarão a praticá-lo, muitas às escondidas para que não se transformem numa chaga social à vista do conservadorismo da maioria da população. Continuaremos a não ter um acompanhamento decente das mulheres jovens que engravidam contra a sua vontade ou que não dispõem de recursos para criar um filho, continuaremos a ver outras a abortar porque simplesmente não querem ter o filho por um ou outro motivo.

O aborto continuará a ser praticado sempre que uma mulher o queira, quer ganhe o SIM, quer ganhe o NÃO.

A real hipótese de mudança é a oportunidade única de permitir uma intervenção atempada nos casos em que algo corre mal sem o perigo de a mulher ser apontada na praça pública dos tribunais. É a oportunidade de conceder o direito de escolha à mulher , dona do seu corpo e da sua consciência, única a conseguir julgar as suas verdadeiras hipóteses de colocar e criar um filho num mundo que não perdoa a mínima hesitação.

É uma oportunidade única de todos os portugueses acabarem com uma lei de contornos medievais e inquisitórios, própria de países de extremo fanatismo religioso.

É a oportunidade única de limparmos Portugal de um dos últimos sintomas do obscurantismo que apagou o país durante décadas, senão séculos.

E para isso bastará votar SIM. Pela vida.

Anúncios