Archive for the ‘direitos’ Category

» a começar a jornada

#00023

Um dos blogs que visito pela manhã é o Jornada. Blog pessoal de jornalista, é um daqueles espaços onde, em textos curtos, podemos ler as notícias pequenas que ninguém lê, a par de reflexões rápidas e frequentemente incisivas acerca dos principais assuntos da actualidade. Quando não reflecte, propõe a reflexão, o que gosto ainda mais.

A língua e a pátria é um bom exemplo disso. Segundo o Filinto, embora não tenha opinião formada acerca do assunto, considera que a língua, para além do nascimento, seja uma boa fronteira para a definição de nacionalidade.

Quanto à língua, existe uma citação romana pré-cristã que nos diz, mais coisa menos coisa, que um homem é tanto mais superior quanto o número de línguas que fala. Os antigos romanos são, neste campo, um exemplo a seguir. Na realidade, num contexto “globalizador” como era o da Pax Romana, não só foram capazes de articular o poder e culturas locais com o governo central, como souberam, em grande parte, aculturar-se nas regiões conquistadas. Não era por acaso que, depois de uma vida de guerra, os combatentes romanos tinham, como prémio, um pedaço de terreno da terra onde estivessem. Espalhar Roma geneticamente era também um objectivo e, muito cedo, a miscigenação começou. A das línguas também.

A relação de poder que existiu nesses tempos fez com que, acima de quase todas as outras línguas, sobrevivesse a latina. A escrita, o correio, a circulação de informação assim o ditaram. Ou seja, a par dos romanos que agiam localmente, os povos conquistados eram, por definição, romanos. Talvez tenha sido a primeira vez que se tenha dito “Think global, act local”.

Hoje as coisas não diferem muito desses tempos. A globalização continua, a Pax Americana existe, novos impérios orientais e ocidentais, novos ditadores e novos pensadores dão um formato um pouco à imagem dessa época. Talvez o Mundo não mude assim tanto, afinal.

No entanto, existem coisas que são diferentes desse tempo. Se os romanos respeitavam a língua e os deuses locais, ao que assistimos agora é, frequentemente, o contrário. Atente-se, por exemplo, no que se passa em Espanha com a línguas consideradas “dialectos” como o Galego, o Basco ou o Catalão. Na realidade, é aqui que a ideia que o Filinto tem assume os seus mais nítidos contornos, é em situações como esta que a língua é, realmente, uma fronteira, uma definição de nacionalidade.

Por outro lado, os surtos migratórios cada vez maiores provocados ainda e uma vez mais pela globalização, exigem uma nova definição de nacionalidade. Nacionalidade é relativa a onde nascemos ou onde vivemos? Nada impede que tenhamos duas, ou três… à futebolista. Mas creio que, neste caso, os ingleses têm razão.

Uma das principais causas de exclusão social é o ghetto. Eles chegam, vê-se a “etiqueta de origem” e é-lhes destinado um local “junto dos seus”. Estes locais são bairros sociais ou de lata [dos que já naõ existem] e são sítios onde os diferentes grupos se isolam. Falam todos a mesma língua dentro do grupo e, frequentemente, não falam a língua do país onde estão. Em Portugal isso verifica-se cada vez mais e o exemplo mais gritante que conheço é o da comunidade chinesa.

Os recentes acontecimentos de Paris ensinam-nos como o ghetto é perigoso. E num mundo com cada vez menos fronteiras físicas, sem fronteiras financeiras, um mundo onde o dinheiro corre de mão em mão e milhares correm atrás do dinheiro, a língua é realmente cada vez mais a pátria de quem a fala. A distinção entre iguais é quase uma necessidade absoluta.

Evitar o perigo neste contexto é ensinar aos imigrantes as ferramentas básicas de comunicação para que possam, rapidamente, integrar-se no mundo que os rodeia e que é, afinal de contas, a sua nova casa. Chegarem cá e aprenderem a língua, noções básicas da cultura do país e os principais rudimentos legais e da Constituição da Republica é o primeiro passo para se reconhecerem como cidadãos de pleno direito e se recusarem a uma vida no ghetto.

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» o rescaldo

#00004 

Pois Portugal foi a votos e cerca de dois milhões de portugueses escolheram a liberdade e por isso estão de parabéns.

Faltará agora resolvermos, depressa, o que fazer com a liberdade conquistada. Analisar atentamente todas as problemáticas associadas à prática do aborto e que, no fim, lhe dão origem, é uma prioridade a ter em conta.

Repensar as limitações sociais que originam o descontrolo desta prática, tentar eliminar preconceitos e limar fundamentalismos são desafios que se impõem. A única forma existente de o conseguir é através de uma forte aposta na educação dos jovens que, por sua vez, terão a ingrata tarefa de o ensinar à restante sociedade.

Convém ter em conta que houve muitos, mesmo muitos, a votar não. Os motivos que os levaram a votar nesse sentido prendem-se com uma determinada moralidade e esta deve ser levada em conta. A campanha pelo não, conforme pudemos assistir, fundamentou-se em preconceitos e num obscurantismo religioso há muito esquecidos mas que se encontravam latentes, especialmente no norte do país onde a Igreja mais fundamentalista consegue manter baluartes.

Por isso, a estratégia a utilizar com o objectivo de uma educação para o desenvolvimento de igualdade reveste-se de capitais cuidados para não colidir com os direitos básicos dos que professam uma religião e por forma a, se possível, encontrar no seio desta a motivação necessária para a possivelmente lenta abertura desta franja populacional aos novos parâmetros reguladores de tão polémica questão.

Não devemos, portanto, esquecer algumas premissas básicas: o aborto continuará a ser praticado de ambas as formas, legal e ilegal até que a sociedade esteja realmente preparada – ambas as opções que foram referendadas encontram em si apoiantes que praticaram e hão-de praticar o aborto recorrendo a práticas ilegais, ainda agora depois da despenalização. Uma outra premissa é a de que não estão ainda criadas estruturas verdadeiramente eficazes para o combate aos males sociais que desencandeiam o aborto.

A aposta na educação, a erradicação da pobreza, o aconselhamento às grávidas, o acompanhamento de situações de risco são condições sine qua non para o exercício desta liberdade conquistada.

Por isso, senhores, mãos à obra. Façam as coisas bem e rapidamente, se faz favor.