Archive for the ‘política’ Category

» votamos SIM porque…

#00020

A principal causa da vitória do SIM, segundo a conferência do Instituto de Ciências Sociais liderada por Ana Nunes de Almeida, foi a necessidade dos portugueses acabarem definitivamente com uma situação que se tornava incómoda desde 1998. Ainda segundo esta conferência, outras situações concorrentes para a vitória do SIM foram a visibilidade dos julgamentos de mulheres que praticaram abortos e os maus tratos em crianças.

Relativamente à posição dos partidos, a opinião dos analistas é que estes conseguiram alguma importância apenas pela dissonância. Querem dizer que o que verdadeiramente ocorreu durante a campanha foi uma movimentação cívica verdadeiramente excepcional e que os partidos apenas “marcaram o ponto”, estabelecendo territórios.

O reforço da laicização, a privatização dos comportamentos familiares, a indivudualização, foram também causas determinantes da vitória da despenalização das mulheres que pratiquem o aborto, isto é, nos circuitos em que esta facção ganhou, existiu uma importância decisiva no assumir a opinião própria, o julgamento indivudual, não dependente de conceitos de ordem política ou religiosa.

Aparentemente, a confusão da classe médica em relação ao momento em que se pode considerar existir vida humana, contribuiu também para o resultado. Na realidade, toda a discussão a que pudemos assistir andou em torno de suposições e nada de concreto e definitivo foi alcançado. Em vista disso, tivemos que estabelecer prioridades.

No entanto, devemos ter em conta que a prática médica dos profissionais que apoiaram o NÃO não é consentânea com a vitória do SIM. Poderão daqui advir objecções de consciência por parte dos técnicos de saúde, “atrasos” e outras espécies de tomadas de poisição.

Quanto à Igreja, esta deveria ter sido coerente com os seus princípios, dizendo simplesmente que o direito à vida não é referendável. Se tal tivesse acontecido, poderia ter originado um boicote ao referendo que resultaria em cerca de 70% de abstenção.

Em vez disso, a Igreja viu o referendo e a sua campanha como uma hipótese de  demonstrar a vitalidade dos grupos no seu seio e pagou caro a sua submissão à lógica do referendo.

A Igreja, numa ruptura simbólica com a situação anterior, optou por admitir a consciência individual na abordagem do problema. O que aconteceu, afinal, foi que os católicos assistiram impotentes ao êxito das correntes laicas.

Fonte: Jornal de Notícias, 14 de Fevereiro de 2007

Anúncios

» eu votei SIM mas…

#00019 

O PS, alegando razões que se prendem com a liberdade de decisão da mulher em relação à pratica de um aborto, sustenta que não podem existir condicionamentos a esta mesma decisão. Diz-nos que, por tal, não avançará com a consulta de acompanhamento e que a única coisa que quererá ver reflectida na lei será um período de reflexão de três dias.

Embora concorde com o princípio básico da questão, isto é, a mulher deverá ter sempre a sua liberdade de decisão garantida e não deverá ser submetida a tipo algum de condicionamento, resta-me saber se esta prática resultará, por exemplo, em casos de cidadãs menores.

É certo que uma mulher, ao recorrer a uma consulta de aconselhamento quanto à prática do aborto, pode mesmo dar com um médico que observe princípios morais que o impeçam de apoiar esta prática. Também é certo que, mesmo que se trate de um médico que não tenha esse tipo de abordagem, a sua opinião acerca da mulher que está a examinar poderá influenciá-la num sentido ou no outro. Resta-nos, então, estabelecer normas de conduta para este tipo de consultas que permitam ao médico uma correcta balizagem da sua actuação e ofereçam à mulher a oportunidade de ver o seu caso estudado por uma visão científica e imparcial.

Não considero, portanto, que se deva recusar a consulta de aconselhamento às mulheres que tencionem praticar um aborto.

O nosso dever social é, primeiramente, o de impedir a existência de abortos. Isso verifica-se no trabalho a montante, a educação sexual, a correcção de assimetrias sociais, informação e informação. O trabalho do hospital enquanto entidade que procede ao ao aborto é um trabalho final, o do facto consumado.

Nesse sentido, acorrerão aos hospitais mulheres, muitas delas jovens, que apresentarão motivos diversos, cada um deles mais válido que o próximo, para fazer um aborto. Cabe aos médicos e especialistas sociais o trabalho de estudar as causas dessa tomada de decisão e, em conjunto com a mulher, dissecar todas as formas possíveis de resolver o problema. Com ou sem recurso ao aborto.

Existindo uma bitola de actuação com uma deontologia perfeitamente definida para este caso particular, não é meu entendimento que tal possa resultar em condicionamento da decisão da mulher. Creio que a principal tarefa da sociedade é a de auxiliar as mulheres a terem os filhos e não de facilitar o aborto.

A minha posição em época de referendo não colide com esta opinião. Uma coisa é a despenalização da mulher que pratica o aborto e o combate ao aborto clandestino, outra coisa é desresponsabilizar a sociedade e carregar a nulher com o pesado fardo de uma decisão solitária.

» hip-hop presidenciável

#00013 

Pessoalmente vejo a candidatura de Obama à presidência dos EUA com extrema simpatia. Mas também gosto de ver Hillary a concorrer. Temos, assim, a oportunidade de ver a central de poder mais unfluente do mundo a ser comandada pela primeira vez por uma mulher ou por um negro.

Sabemos que não é por podermos vir a verificar uma das duas condições que algo mudará substancialmente na América. O país é o que é, o seu povo tem a educação que tem, os objectivos dos EUA no mundo são regulados por uma qualquer “hidden agenda” fabricada na miríade de corredores de poder da Casa Branca e do Pentágono.

Mas não deixa de ser curioso observar as campanhas eleitorais, os conteúdos e as formas, os jogos e, mais importante de tudo, o espectáculo.

E este começa cedo. Via Jornada, chega-nos a condição de estrela hip-hop de Obama. E que outra coisa poderia ser? Havia um anúncio [do tempo em que se chamavam reclames] que dizia “É uma artista português e só usa Pasta Medicinal Couto”. A coisa funciona com Obama que ascende, já de início, à condição de estrela pop. Resta saber o que irá Hillary fazer. Pole Dancing?

» uma sociedade política

#00005 

Apesar de terem existido intervenções partidárias na recente campanha para o referendo à despenalização do aborto, campanhas que se pautaram declaradamente pela atitude política de granjear mais um voto em eleições futuras, quer dar-me a impressão de termos assistido a uma verdadeira mobilização da sociedade civil em torno de um tema que a todos diz respeito.

Esta forma de participação activa na política do país é, sem prejuízo das restantes, um explêndido exemplo da capacidade de mobilização popular em torno de discussões de interesse comum. Dá um sério aviso à classe política e escreve a letras de fogo: “NÓS CÁ ESTAMOS!”, à semelhança do que aconteceu, por exemplo, no referendo à regionalização.

É de louvar a participação popular e é desejável que a sociedade civil se empenhe em cada vez mais causas. Não devemos deixar tudo nas mão dos políticos, alguma coisa terá de ser resolvida por nós. Fica aqui provado que a participação popular tem capacidades, que a mobilização civil não é coisa do passado e é, cada vez mais, necessária.