Archive for the ‘histórias de polvos’ Category

E como é ser como tu? É ser metade quando se sente por inteiro? É ter ganas de chegar sempre na partida? Ou de partir sempre na chegada? É ser tormenta, vento veloz que sacode, acorda, fustiga? É ser profundo no toque, suave no embate? Como é ser como tu? É viver junto ao abismo e não mergulhar, não pela queda, mas por quem fazemos cair? É ser sombra que vagueia pelas paredes imaginárias que se estendem no vácuo? Ou és mais do que sombra? Esta não tem toque, não tem cheiro, não tem calor, não tem sabor. Quero-te. Mais do que sombra. Mais que do que imagem. Quero-te Ser. E agora?
[Palavras gentis de gente amiga]

Sou apenas um homem engomado. Um animal que respira. De vez em quando, tiro as máscaras e lavo a alma. Mas é raro. O que sou é o que se vê. Sou a superfície de mim mesmo. Sem tirar nem pôr. E isso depende do local. Da luz. Da circunstância. Sou, assim, um ser circunstancial.
OlhO de Misha Gordin

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Olha para mim. Estou aqui, sou parede intrusa no teu circuito habitual. Esbarra-te em mim e concede-me os teus segundos de adoração. Fixa-te nos pormenores e contenta-te com a alta resolução da imagem, da imaginação. Queres-me ou queres ser como eu?

Já te engomei a roupa. Já te arrumei a casa. Já te fiz o jantar, deixei-to no micro-ondas. Deixei-te preparado o fato para amanhã, aquele das reuniões. Não jantes sem aqueceres a comida. Faz por te deitares cedo. Se eu não estiver na cama, não te incomodes. E não me incomodes.
OlhO de Aaron Hawks
Lamento dizer-te mas o pecado não mora ao lado. Lamento desiludir-te mas o pecado não mora em lado algum. Não sei se irás conseguir viver assim, no vácuo moral a que te remeto de ora em diante mas, na verdade, o pecado não existe. Que fazer?
OlhO de Matt Lombard

Não me recordo do dia em que deixei de ser criança. Provavelmente chovia ou estaria, de uma forma ou de outra, mau tempo. Não creio ser possível deixarmos de ser criança num dia de sol. Ou talvez tenha sido à noite, no escuro, que sucedeu aquele tempo em que qualquer coisa que se parece com alma deixa, por fim, um corpo que se transmuta num amontoado de glândulas vibrantes, numa fábrica de secreções, e em que o cérebro parece, de uma vez por todas, tolher-se frente ao desamparo que se instala.
OlhO de Siro Anton
Entras e, uma vez lá dentro, tens que ter cuidado para não topeçares numa das milhentas caixas que por ali jazem ao acaso. Os ficheiros já arrumados, nas inúmeras gavetas dispostas nas inúmeras paredes, por ali ficam, silenciosos, sem ditos nem achados. Cada um deles no lugar preciso, na localização perfeita, por ordem cronológica primeiro, depois por área geográfica, seguidamente por ordem alfanumérica. Não fossem as caixas espalhadas e seria perfeito. Mas, um destes dias, tudo há-de estar arrumado. Tudo será ordem. E todos estaremos, por fim, catalogados.
OlhO de Bastien Pons

Poderia dizer-te o lugar comum do desejo de Paz entre os Povos, poderia cantar-te a canção do costume, a dos desamparados da vida, dos desalojados, das crianças em guerra e em fome. Poderia, mesmo honesto, dizer-te que te desejo umas boas festas.
Mas a verdade é que nem sequer me importam as festas. Não reconheço o natal a não ser pelas prendas que duram há quatro décadas, pela atmosfera pesada do excesso de comida e bebida, pela farsa da convenção da reunião familiar, sorrisos entre copos de Porto, coisas que logo se esquecem.
Foi breve o natal que recordo com mais entusiasmo. Durou apenas a meninice do meu filho, agora crescido demais para apreciar com olhos de menino a magia que esse momento inspirava.
A partir daí, o natal dissolve-se na obrigação de. Simples. Cumpre-se, uma vez mais, o calendário.
Quanto aos outros, os miseráveis, os pobres, os que não têm onde cair, esta é a altura em que fico cansado de falar, de pensar, de dirigir um átomo de alma para com eles. É a altura em que toda a gente o faz e logo vira os olhos para a montra.
E natal é quando o homem quiser e o comércio permitir.
Por isso, digo-te apenas: boas festas, que eu não me importo.
OlhO de Ronald Puhle
E, no fim, de que te adiantou tentares nadar até à praia? Não teria sido mais ajuizado deixares-te levar pelas sereias? Foi o que ganhaste: morreste cansada.
OlhO de Aaron Hawks
As paredes nuas e brancas não reflectem imagem alguma. Fazem-me pensar que talvez não estejamos aqui, que talvez sejamos apenas os fantasmas de nós próprios. Não é suposto falarmos em voz alta. Sussurremos apenas o indispensável para que não acordemos. Letárgicos, anfíbios, espessos, viscosos.

OlhO de deFocused

Consegues ouvir os GRITOS? Consegues escutá-los por entre o ruído da chuva? Hoje é dia de não. Hoje rebentam os diques. Hoje corremos para salvar os animais. Hoje não limpamos as lágrimas, deixámo-las misturar-se com a água que nos escorre do corpo. Consegues ouvi-los agora? Consegues escutar os GRITOS por entre o vento e o trovão? Por entre o calor que anuncia a tormenta? Hoje é dia de paroxismo final. É dia de saltar as veias, de enrijecer os músculos. De crescer. Consegues ouvir agora os GRITOS? Aproxima-te, então.

» OlhO de Tim Flach