Archive for the ‘post-poética’ Category

E a lágrima cai-me em espanto. Diz o Velho que assim morrem as rosas e que, ao abandono em que restamos, resta apenas o desespero dos que, condenados, ladram à eternidade. A rosa flutuante rio abaixo, trágica companhia de Ofélia, a final dimensão do impossível. E nós, num sereno autismo, aguardamos a vinda das chuvas.
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Se vais partir, fá-lo já. Não olhes para trás.
Salvo uma qualquer imprecisão metafísica poderia, num momento, considerar-te uma deusa. Não fosse a carne que ocultas, não fosse o silêncio perfumado que consentes, serias com toda a certeza uma das companheiras olímpicas do meu desejo. Assim te desvelas, assim te revelas diante dos meus olhos simplesmente mortais. Resta-me a memória.
OlhO de Angelica
Sim… é mais ou menos como andar no fio da navalha. O que move hoje em dia esta massa muscular é um permanente ranger de dentes. O cérebro é impecilho. Já ouviste aquele Adágio e Fuga de Mozart… é mais ou menos assim. A vertigem como forma de estar, a corrida para parte incerta, para parte alguma. Negro? Sim… claro.
OlhO de Mark Tucker

Deixa-me por agora. Talvez mais tarde. Talvez.
Aprendo a linguagem da máscara. Retenho a força da esfinge e forço-me a não me cruzar com o espelho. Variantes ágeis de retiro, formas encapotadas visíveis apenas num espectro limitado. Talvez tenha decidido que o negro seja a minha cor. Ou talvez seja apenas a minha cegueira daltónica, subterfúgio de uma vaga incapacidade de ver algo mais. Monocromático, indolentemente monocromático. O meu espelho. A minha máscara. Esfinge.
Um sorriso rasgado pelo tempo.
Um sorriso rasgado pelo tempo.

Um sorriso rasgado pelo tempo.

» OlhO de Sarah Shoughi
Existem labirintos onde podemos escolher perder-nos. Existem formas, boatos, pressões… ideias que se perdem na espiral fragmentada do ser. Uma alma, portanto. Por tanto. Existem paisagens que não se definem. Os neurónios não lhes dão sentido, sentem-nas. O retorno a casa não é, nestes locais, uma prioridade. A relativa liberdade de circulação perde-nos, prende-nos. E a distância nunca mais é. A memória também.
» OlhO de Farrokh Chothia

» barfly

Balcão sujo
Dedos brincam nas marcas circulares
Dos copos deixados vazios
Pensamentos em pequeníssimas garrafas de cristal
Tomam forma
Ardem por dentro e não deixam respirar

As palavras surgem desbotadas
A visão dança

Alegre companhia a minha
Neste local deslocado
Onde a vergonha é paga à saída
E a memória não existe

De copo em copo vejo a minha história ser apagada
Até restar somente eu
E as moscas que me bebem os restos

Lá fora a noite vai estar apagada
E os cães vão rosnar à minha passagem
Pelo caminho há-de haver alguma luz
Algum letreiro de néon que me guie
Bar adentro mar adentro
Num caminho sem recuo
Num caminho sempre igual

É o tilintar das moedas no balcão que me acorda
Deste estupor desvairado
Um amigo
Mais um copo
Enquanto não fecha.