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» ida aos saldos

Comprar um disco ou um livro são actividades reservadas a quem tenha dinheiro. Eu vou tendo mas, como não é tanto como isso, tenho adoptado a estratégia de esperar que este ou aquele título entre na secção de “esquecidos” e ostente um preço mais razoável e, se possível, de saldo.

Como de costume, esta semana fui passear entre os escaparates de discos da FNAC, à procura de “novidades” e, entre discos que ando para comprar e outros que nem sequer conheço, lá fui experimentando uma ou outra coisa, tanto quanto é possível experimentar nesse estabelecimento que só nos deixa escutar o primeiro minuto de cada música do disco. Eu, que sou mais cliente do pop/rock, ainda me desenrasco. Mas imagino o risco que sofrem os consumidores de jazz ou música erudita que têm que se contentar em ouvir uma introdução.

Adiante. Para além das habituais escolhas para quarentão – andam por lá as re-re-reedições de álbuns dos The The, Joy Division, The Sound, Alice in Chains, Bauhaus, Einsturzende Nuebauten, Smiths, Jeff Buckley, etc., etc., etc., vão já surgindo coisas novas a preço de saldo. Falo de álbuns como, por exemplo, o novo dos Tool, o dos Editors, o segundo dos Interpol, uma “raridade” dos Monster Magnet – este não tão novo como isso, datado de 1995 – a quase totalidade dos títulos dos Korn, dos Deftones, entre mais alguns agrupamentos relativamente recentes. [recente é uma palavra de valor relativo a partir de uma certa idade]

Pois aqui o escriba optou por comprar um disco que não conhecia e que não estava programado. Fiquei deveras surpreendido com a sonoridade apresentada e, após a compra, apressei-me a escutá-lo no leitor do carro já a caminho de Sintra. E a coisa passa-se mais ou menos assim:

Trata-se de uma sala onde a fumarada paira deixando o penetrante cheiro de especiarias mais ou menos legais. Os copos de cerveja morna ajudam à festa. O palco, de simples decoração que não passa de um imenso cortinado de veludo escarlate, vai enchendo à medida que os elementos da banda entram em funções. São muitos, é uma banda enorme.

Temos agora em cima do palco um Tricky pré-comatoso que debita alguma das electrónicas que acompanham os Scissor Sisters que fazem um dueto com o Frank Zappa. Lá atrás vê-se passar os fantasmas de David Bowie e Peter Gabriel que esvoaçam e se aproximam, por vezes, do microfone. Consegeuem ouvir-se algumas das suas vocalizações. O despique entre Frank Zappa e os Scissor Sisters é empolgante e os ritmos que o Tricky deixa na atmosfera, agora auxiliado pelos Baby Namboos, dão um ar algo surreal à música que se ouve. Balança-se entre a tragicomédia de um “crooner” algo texano e uma batida drum’n’bass acústica a fazer lembrar os 4 hero ou hextatic. Retoma-se o rock, ou pós-rock, ou nem por isso e salta-se por momentos entre as guitarras distorcidas, as electrónicas enquanto que os Scissor Sisters e o Frank Zappa se vêm em apuros tentanto enxotar os fantasmas de David Bowie e Peter Gabriel. Tricky entrou em come e deixou as coisas a cargo dos Baby Namboos. A partir de agora dança-se, enrola-se, diverti-mo-nos com a ousadia de fazer copy-paste sucessivos de coisas primárias que encantam, desencantam ou nem uma coisa nem outra. É que eles fazem música e, mais que isso, fazem não-música. Os fantasmas foram finalmente enxotados e começam, um de cada vez, a sair do palco, até ficar a cortina que já é roxa sangue a atestar a memória.

É uma memória curiosa esta, a de um espectáculo que não foi mas poderia ter sido. E ficam por aqui algumas coisitas a explicar o que quero dizer. Está em saldo a 11 Euros na FNAC GaiaShopping, com tendência a baixar.

A “malha” do álbum:

A mesma “malha” num “showcase”:

… só para verem que não tem nada a ver com o que escrevi, nem com eles próprios.

Mas eles têm mais e bastante melhor. Ouçam as propostas que os TV ON THE RADIO têm no myspace [tvotr] e aproveitem os saldos.

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